Cristina Amaro
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Um grito de esperança!

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A vida

Um grito de esperança!

esperança

Por Cristina Amaro

   Não temos tempo. Nunca temos tempo até chegar o dia em que o tempo se cria a ele próprio. E geralmente dói! Dói porque levou tempo demais. Porque ficou para trás muito tempo de vazio que não precisava de lá estar.

    A morte de Pedro Lima fez-me pensar muito. Muito mais do que já penso. Por vezes até demais mas ainda assim prefiro fazê-lo, uma vez que me permite identificar as dores, compreendê-las e sará-las para que deixem de doer. Preocupo-me hoje mais com as pessoas que não pensam e que não se ouvem. E com o facto de poucos terem tempo para as ouvir.

    Dormi mal na madrugada em que o Pedro tomou a decisão de rumar ao mar sem a prancha que lhe permitia rasgar as ondas. Seguramente, nada teve a ver com isso mas sim porque sei bem o que é ter uma madrugada desperta por preocupações. As angústias fazem parte dos nossos tempos e, por vezes, essas inquietações são demasiado difíceis de suportar. De tal forma que deixamos de saber como as aguentar.

    Felizmente, nunca senti o apelo de escolher desistir da própria vida. E essa deve ser a mais difícil decisão de todas. Por essa razão, não julgo nem pergunto porquê. O Pedro e a sua família merecem o nosso respeito neste momento de dor. Ainda mais do que já mereciam antes.

    Leonor Poeiras escreveu no feed do seu Instagram que não se trata somente de termos coragem de pedir ajuda, mas sim de sabermos ajudar. Tão certeiro. Respondi-lhe com algumas palavras e tive finalmente vontade de vir aqui deixar mais umas quantas. A escrita faz-me bem e ajuda-me a perceber o que sinto e porque o sinto. Mas a verdade é que levei anos a perceber que isso me podia ajudar. É preciso tempo para conhecermos bem os nossos sentimentos e só nesse momento é que conseguimos verdadeiramente respeitar os dos outros e ajudar quando nos abrem o coração.

    Estamos todos a viver momentos muito exigentes. E apesar de estarmos todos a dizer uns aos outros e a nós próprios que temos de resistir e que vai passar, o que fazemos enquanto não passa? O que nos fazemos? O que fazemos aos nossos? Aos nossos amigos, familiares, colegas, compatriotas? Temos uma responsabilidade social na vida mas esquecemo-nos dela a todo o momento. E porquê? Porque nunca temos tempo. Até o tempo abrir mão de nós…

    Escrevi à Leonor que é preciso, a todo o momento, estarmos atentos ao que sentimos e ao que os nossos mais próximos sentem para efetivamente os ouvir, aceitar, apoiar, compreender e ajudar. Mas é preciso que tenhamos capacidade de querer ajudar e sermos ajudados. Não encarar este processo como uma fraqueza mas sim como uma força. Não temos de expor a nossa vida e a nossa privacidade ao mundo mas temos de a expor a nós próprios e a quem escolhermos para ser o nosso guia.

    Cuidar do nosso corpo interior é tão ou mais importante do que cuidar do nosso corpo exterior. E tem de doer para haver mudança! Só a dor nos faz agir e nos faz mudar. Diz-se na criatividade que só se cria quando há desconforto. Não devia ser assim. Não era preciso ser! Mas são tantas as vezes em que isso acontece que sou obrigada a concordar. No entanto, acho que não precisamos de chegar à dor se mantivermos permanente o desejo de nos acompanhar a nós próprios a todo o momento.

    O Pedro partiu. É a única coisa que todos sabemos. O resto são suposições e só ele saberá porque naquela manhã não levar com ele a prancha de surf para ser ela a rasgar as ondas. Respeito muito a decisão de partida do Pedro. Afinal, quem sou eu para o julgar? Mas talvez por saber bem o que é uma depressão e por saber bem que caminho fiz para dela sair é que hoje escrevo estas palavras.

    Possamos todos dar um grito de esperança para que haja mais respeito e humildade! Em nós e nos outros. Escolher partir pode ter tanto de coragem como de amor e quem somos nós para o questionar? Amemo-nos mais uns aos outros porque somos todos frágeis. Porque somos todos seres humanos. E coloquemos o tempo para cuidar de nós no topo das nossas listas. Porque só quando o fazemos é que conseguimos aguentar as ondas mais fortes e continuar a rasgá-las da mesma forma. Ou então a deixá-las simplesmente passar porque não queremos, na verdade, vestir o fato dos heróis!

    Pedro, se um dia nos cruzarmos, dar-te-ei a mão. Talvez isso precise de acontecer mais também por aqui. Porque a diferença pode estar nos pequenos gestos. Saibamos nós dar a mão a nós próprios e aos outros e seja esse gesto o grito de esperança que não se ouve mas que se sente!     Haja tempo para cuidar de nós. Para cuidarmos dos nossos! Haja tempo para nos respeitarmos como somos e não querermos o tempo para sermos perfeitos mas sim para vivermos em paz.

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