Cristina Amaro
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“Somos uma boa HISTÓRIA mal contada…”

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As pessoas

“Somos uma boa HISTÓRIA mal contada…”

Nos dias 26 e 27 de junho, estive em Gondomar a convite da Covet Foundation para encerrar a 2ª Edição da Conferência Luxury, Design & Craftsmanship. O objetivo era o de resumir dois dias de intervenções e debates e devo confessar que não foi nada óbvio. Tratou-se de quatro painéis riquíssimos em que muito se discutiu a mestria artesanal, a urgência de reconhecer e de qualificar os artesãos portugueses, bem como de preservar as nossas artes e os nossos ofícios. Discutiu-se também a necessidade de enquadrar os nossos gestos artesanais em contextos mais amplos de geografia e de contemporaneidade, para ganharem relevância e impacto. Falou-se ainda das empresas e das marcas do futuro, mais profundas, com um propósito bem definido, respeitadoras do tempo, das pessoas e da Natureza e com coragem para acrescentar valor em lugar de o subtrair constantemente. 

Guardei em mente uma frase de Carlos Coelho, presidente da Ivity e um dos keynote speakers“Somos uma boa história mal contada ou contada por outros”, que alertava para a necessidade de entendermos os nossos artesãos e as nossas artes e ofícios como bens públicos que todos temos a obrigação de proteger, cuidar e perpetuar, para podermos ser nós a contar a nossa história. O caso do azeite português, por exemplo, foi apresentado como uma boa ilustração de uma história feliz mas contada por outrem. Um produto de excelente qualidade vendido muitas vezes como sendo italiano ou espanhol, a preços significativamente mais elevados. Lembrei-me então da famosa Portugaba, a bolsa hit deste verão, lançada por Christian Louboutin em homenagem a Portugal. É 100% feita com bordado português e pela mão de artesãs nacionais, com um custo à volta dos €150 e vendida por €1 650 online (e esgotada em algumas plataformas de venda!). 

Mais uma vez, uma bela história, felizmente contada, mas, com muita pena, não por nós…

A qualidade intrínseca de um produto é objetiva, talvez por isso tenhamos consenso quando se fala da qualidade da manufatura e da indústria portuguesas. 

O que nos escasseia é valor percebido, acrescentado por um bom design e uma marca forte. É aqui que deixamos a nossa história mal contada ou por contar, é aqui que deixamos o nosso património em mãos alheias e o nosso valor económico por acrescentar. É aqui que não alimentamos a cadeia com valor. Que vendemos e pagamos bem, que reconhecemos quem merece, que perpetuamos o nosso legado. É por aqui que temos de começar e daqui andar para trás. É a partir daqui que devemos apanhar balanço e projetar o futuro, que não tem por que não ser construído e contado por nós.

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