Cristina Amaro
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SE não fosse…

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A vida

SE não fosse…

Se não fosse o vento, a praia estaria boa. 

Se não fosse por chegar a casa tarde do trabalho, brincaria mais com o meu filho.

Se não estivesse tão cansado, seria um melhor pai ou uma melhor mãe.

Se não tivesse medo de viajar de avião, faria a minha viagem de sonho.

Se não fosse a falta de dinheiro, até teria uma boa vida.

Se não fosse o que passei na infância, seria atualmente bem mais feliz.

Se não fosse a falta de tempo, praticaria exercício físico.

Temos critérios muito bem definidos no que respeita a travar a nossa felicidade. Impomos barreiras, arranjamos desculpas, inventamos mil e uma artimanhas para bloquear o nosso bem-estar. Não quer dizer que as barreiras não possam existir, mas a mais forte e eficaz das barreiras é aquela que nós próprios construímos dentro de nós. Como forma de escape ou mesmo de inércia, somos hábeis em criar muros que nos separam do melhor das coisas.

A ciência diz-nos que um corpo humano tem em média 70% de água. Qual será a percentagem de desculpas e de “mas” que temos? Em alguns casos, deve superar a da água. 

Vivemos do passado como se este estivesse colado ao sempre da nossa vida. Mas o passado acabou. Independentemente de terem ficado as sensações, as feridas e a aprendizagem, ninguém consegue viver eterna e realmente o que passou a não ser que apenas queira ser um sobrevivente. O que vivemos é somente uma perspetiva. E para conseguirmos a libertação que pretendemos, é necessário mudar a história.

Há momentos em que nos alimentamos de desculpas como se estas fizessem parte da nossa dieta diária. De todas as formas e feitios, somos estrelas Michelin de desculpas. Encaramos o “se não fosse…” como o ingrediente principal das nossas receitas existenciais. Somos chefs de uma vida fragmentada.

Por mais que tentemos resolver tudo de uma só vez, a verdade é que haverá sempre pontas soltas. É um processo de crescimento e de resolução interior que se vai fazendo à medida que a nossa perspetiva vai mudando. É preciso persistência, conhecimento e fé.

Se um dia decidir substituir o “se não fosse…” pelo gesto de fazer o que tem de ser feito, a sua vida ganhará um novo impulso. Afinal, a praia pode ser boa mesmo com vento. E o seu filho gostará de brincar consigo mesmo que vá um pouco mais tarde para a cama. 

Há erros que só cometemos uma vez. Não por aprendermos logo a lição, mas porque são irremediáveis e por mudarem drasticamente tudo a partir desse momento. A maioria de nós até sabe que erros são. Mas poucos são os que verdadeiramente assumem a responsabilidade de os aceitar e superar.

Quando sentir que o “se não fosse…” está muito presente na sua vida, faça algo. Faça o que lhe mete medo, mostre a si próprio o que é mais importante, quebre as barreiras. Terá sempre medos e desafios pela frente. Não há resoluções transversais a tudo. Mas há perspetivas de sucesso. Formas de estar na vida que podem dar-lhe o que pensava ser impossível.

Treine-se para executar o que tem mesmo de ser feito e não o que o retrai ou o faz ficar adormecido. Quando lhe aparecer um “se não fosse…”, faça a seguinte pergunta: “E se não fosse o que se não fosse?” Verá que, na maioria dos casos, não há mesmo nada a impedir. Desconstrua a imagem de impossibilidade.

Um dos livros que sugiro que leia como forma de entrar em ação e se deixar de desculpas é “Basta de Desculpas!”, de Sean Stephenson. Um livro que, através da surpreendente história do autor (que aos olhos de muitos tinha tudo para dar errado), nos dá a perspetiva de que já possuímos todos os recursos para vivermos ao máximo.

Deixe-se de “mas” e de “se não fosse…” e simplesmente viva. Tire-se da sua frente e caminhe. Simplesmente caminhe.

Desejo-lhe momentos inspiradores.

Boas leituras,

César Ferreira
Biblioterapeuta e reading coach

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