Cristina Amaro
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Os ENSINAMENTOS de Elisabete Jacinto

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Os ENSINAMENTOS de Elisabete Jacinto

Atendeu uma voz rouca quando liguei para a Elisabete a confirmar a data da emissão da nossa conversa. Disse, de imediato: “Elisabete, não me digas que ficaste assim depois do nosso encontro”. Sabia o que ela ia dizer. E disse mesmo. Não foi diferente comigo. Eu também piorei e só agora parece que começo a recuperar. 

O frio fez parte do ambiente que apanhámos durante as gravações e era inevitável ficarmos afónicas ou engripadas. Foram horas de conversa e de recolha de imagens, ao frio. Mas ainda assim valeu a pena! 

Saí de Monsanto com a certeza que a mulher por quem há tantos anos torço, nestas andanças das corridas, tem um valor muito superior ao que o país inteiro lhe dá. A Elisabete é a única mulher piloto de camiões. Em todo o mundo! E sim, entrou em 2019 a levantar a bandeira portuguesa quando conquistou o primeiro lugar.

Confidenciou-me durante a caminhada que fizemos juntas por ali, durante as gravações, que iria fazer uma pausa mais prolongada do que desejava para voltar a reunir condições que lhe permitissem continuar a correr. Não era uma escolha. Era uma necessidade. Há muitos anos a sujeitar-se a condições que muitas vezes são imerecidas, Elisabete sente que está na hora de rever muita coisa. 

Falou sobre um conjunto de sacrifícios da equipa que precisam de ser melhorados. E que, nenhum de nós, sentadinhos que estamos no nosso sofá, os imagina…onde dormem, o que comem (quando e onde), quantas vezes fazem um banho a sério durante aquelas 2 semanas…os imprevistos, os acidentes, as dificuldades, as avarias e as idas ao mecânico para corrigir coisas que por vezes ninguém sabe como corrigir…são tantas as variáveis que, de facto, devemos olhar com outros olhos para esta mulher. 

Estaria eu disposta a tantos sacrifícios? Não sei…sinceramente, não sei! Mas ela esteve durante quase 30 anos. E sei que vai voltar a estar se conseguir voltar a reunir as condições. Eu não tenho dúvidas que a garra da Elisabete Jacinto merece que muitas outras marcas olhem para ela e a apoiem. Mas também não tenho dúvidas que é preciso ter mais exposição para que os patrocinadores queiram estar ao seu lado. Só com retorno eles investem.

Vou ficar a torcer para que a Elisabete volte à ribalta, depois deste prémio único e que tanto mereceu ganhar! Portugal deveria estar orgulhoso. Eu estou. E fiz a minha parte.

Obrigada Elisabete, por teres aceite estar connosco, por partilhares tantos ensinamentos, como diz abaixo a Maria José Martins (que preparou e acompanhou a nossa entrevista) e por quereres lutar até ao último quilómetro por esta vitória! É vosso este prémio. De toda a equipa que hoje lideras com determinação.

Cristina Amaro

É um exemplo de pioneirismo, liderança e coragem. Elisabete Jacinto foi a primeira mulher no mundo a desafiar as dunas e areias do deserto ao volante de um camião. Depois de se ter estreado nas corridas de motos com 24 anos, decidiu dar um novo impulso à paixão pelo desporto motorizado e, a partir de 2003, avança para o Paris-Dakar conduzindo um camião.

Durante 16 anos, correu em busca do primeiro lugar, um feito que conquistou este ano ao vencer a África Eco Race, prova que substituiu a mítica Paris-Dakar. Elisabete Jacinto é uma campeã de Portugal no mundo e uma inspiração para qualquer líder. Cristina Amaro desafiou a Piloto portuguesa a deixar o camião, para uma conversa fora do escritório. Foi numa caminhada pelo verdejante parque de Monsanto que Elisabete partilhou os ensinamentos de uma vida de sacrifícios, situações limite e uma inesgotável vontade de vencer.

Maria José Martins

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