Cristina Amaro
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Breve sessão de cinema em Fuzhou

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Breve sessão de cinema em Fuzhou

Breve sessão de cinema em Fuzhou

Convidei a nossa Diretora Criativa de Branded&Corporate Contents para escrever para o blog. Eu sei que ela gosta de escrever. E também sei o quanto é criativa e sensível. Não só escreveu como nos levou a Pequim. É assim a minha House. Diariamente cheia de criatividade. Inspiração, com cheirinho a ficção, para este início de semana.

Por Raquel Ramos

Raquel Ramos

Na manhã de 20 de Março Yoshio Zhen cruza a ponte sobre o rio Min.

Normalmente pedalar pela Avenida Jiangbin exigiria alguma perícia para o ziguezague do trânsito, mas a cidade de Fuzhou, capital da província de Fujian, ainda desperta lentamente da pandemia, e é por isso fácil fazer o percurso como o idealizaram os engenheiros e arquitetos: uma longa marginal ladeada por palmeiras, onde devia ser sempre domingo.

Yoshio regressa enfim ao cinema, um dos poucos a reabrir dois meses após o encerramento das mais de dez mil salas chinesas. E aquele trabalho, que era apenas um trabalho, parece-lhe agora uma missão de armeiro, a distribuir pipocas doces aos guerreiros cinéfilos (nos cinemas chineses todas as pipocas são doces – só existe essa opção).

Ao cartaz, e à falta de títulos novos, devidamente censurados, regressaram êxitos anteriores, como o filme de sci-fi Terra à Deriva, em que um grupo de astronautas chineses salva o planeta. Fala-se também da reposição de clássicos como o primeiro Harry Potter, de 2001. Yoshio não tem idade para se recordar do mandarim perfeito de Daniel Radcliffe.

A história tem tudo para ser verdadeira, mas é fruto da imaginação deste segundo andar lisboeta, à espera do futuro que Pequim representa, um planeta (talvez) a caminho de ficar a salvo. É curioso que a reabertura dos cinemas chineses tenha apostado numa boa dose de nostalgia, a mesma tendência observada no entretenimento ocidental durante a quarentena, a par da ficção sobre pandemias, inevitável catarse que a ocasião impõe. Não é apenas a pornografia da produtividade que inunda as redes, é também a pornografia do ócio nostálgico: maratonas das séries mais adoradas, o pão amassado nas bancadas ikea, o novo fôlego de jogos como Call of Duty, a bater records no número de jogadores ou The Sims (onde a morte por confinamento, técnica veterana, será ainda mais perturbadora e irresistível).

O estudo da Global Web Index , a partir de uma amostra de cidadãos americanos e britânicos, dá conta de algumas mudanças no consumo de media. O vídeo reina, sobretudo online; as temáticas, essas, vão flutuando conforme a faixa etária. Sempre fui irritantemente millennial, e não seria em plena crise mundial que deixava ficar mal a geração. Tenho várias playlists de fitness, um álbum de receitas no pinterest e subscrevi um novo serviço de streaming – em teoria, tenho boas intenções para este período de isolamento. Deixemos a prática para outro dia.

Há uma estatística, porém, em que me demoro mais. Aparece quase no fim da lista: “pesquisa por férias”, com uma percentagem demasiado tímida para um mundo que fez da viagem o ápice da felicidade. Agora não chega sequer a planeá-la, parece contentar-se com um #throwback por tempo indefinido. Pergunto-me o que mudará na nossa capacidade para sonhar o futuro quando até o regresso à norma é tão temido quanto desejado. Se ainda saberemos avançar no escuro, mesmo que seja apenas no escuro do cinema.

Ao fim de uma semana, o governo chinês ordenou novamente o fecho de todas as salas, mas o meu Yoshio, se existisse, já teria previsto o desfecho logo ao fim do primeiro turno sem clientes, a mastigar o doce enjoativo da derrota, a língua a tentar descolá-la dos dentes. Não se vendeu um único bilhete de cinema em toda a província de Fujian.

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