PROXIMIDADES

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abril
03
Conhecer os convidados

Por Fernando Oliveira

É a primeira vez que estou perto de uma calamidade. Ou que a calamidade está perto de mim, ao ponto de tocar e mexer.

Tendo passado dos 50, pensando bem, sou afortunado, não guardo na memória rastos de feridas grandes, cicatrizes de lágrimas.

Desta vez senti mais.

Talvez pela proximidade geográfica (quando aconteceu a catástrofe de Pedrógão, estava longe), talvez pela dimensão ou pela fatalidade. Há um certo fado em Moçambique, não de xailes pretos, luto e remorso, mas de aceitação, de pertença a um mundo sem adjetivos. Não lhe chamam cruel, violento, inclemente, não lhe chamam...

Segundo o Mia Couto, nas línguas locais de Moçambique não existe expressão para “Natureza” ou “ambiente”. É difícil passar conceitos como sustentabilidade, proteção ambiental, quando as coisas nem palavra têm.

As coisas são o que são, estão lá como sempre estiveram, as árvores, os rios, os animais, as machambas onde se cultiva, as casas feitas com as coisas que por lá se encontram, as pessoas que as fazem, os antepassados que são parte da família e das histórias, que uma família é mais uma grande história do que outra coisa.

E por isso não se define a Natureza, isso é coisa de mulungo (o branco, ou o chefe, varia), quem é a Natureza não se define. Provavelmente, também não têm expressão para a Humanidade (reminder para esclarecimento futuro). Como é que se fala de uma coisa que nos transcende? De uma dimensão que não vemos? A vida é mais concreta, é cheia de coisas palpáveis, há sempre algo a discutir numa aldeia, tudo se discute porque as famílias são tão alargadas que tudo é família. Até na cidade grande estamos apenas a uma pergunta de chegar a qualquer um.

E explicar “conservação”, quando as coisas estão à nossa volta e a gente precisa delas para comer ou para abrigo? Que estranho que cheguem aqui os mulungos e os chineses (mais estes) tão ávidos de madeira e de pesca. Coitados, lá na terra deles não devem ter árvores, têm de vir buscar as daqui. Devem ser muitos e ter poucas árvores, para terem de levar tantas...

E os rios às vezes enchem e vêm as cheias, e varrem tudo, e depois recomeça-se tudo. Já com menos, que alguns entretanto morreram. Enterram-se, cumprem-se os ritos e o luto, desorganizam-se famílias e organizam-se de novo. O pior é para as mulheres, quando o homem morre. Se calha ter deixado bens, vem a família do defunto e leva. Nem sempre leva os filhos, porém. Isso é coisa da mulher. Se tiver sorte, fica com um irmão do defunto, que também tem direitos sucessórios sobre aquela mulher. Que, por isso, às vezes fica como segunda ou terceira mulher daquele novo marido.

Não sei quantos fados se juntam numa calamidade como a do ciclone (será ciclone ou ciclope, daqueles gigantes da mitologia grega, os que terão forjado o tridente que provocava tempestades?). Contam as estatísticas, essas coisas em que se contam as calamidades, que terão sido mais de um milhão os afetados. Centenas ou milhares os mortos, adivinha-se que primeiro os mais frágeis, as crianças, as mulheres, os velhos. Fados para recordar brevemente, que há muito para reconstruir.

Vem ajuda, daqui e daí, de muitos lados. Venha, venha. Muita, que é precisa.

Dizia o Agualusa que a ajuda ocidental não é benesse, é indemnização. Deve ter feito a conta às 0,3 toneladas de CO2 anuais per capita que Moçambique emite, comparadas com as 16 toneladas dos USA.

Não sei como querem chamar-lhe. Prefiro ajuda.

Nas grandes cheias de 2000, o Presidente Chissano terá alegadamente dado instruções para que os jornalistas fossem dos primeiros a ir para o terreno, com todas as condições para documentarem e divulgarem, lá nos sítios onde se usam redes sociais, as imagens da tragédia. Ele sabia que uma imagem move mil corações, ele sabia que com imagens fortes mais depressa viria parte da ajuda que é precisa. Eu queria ter escolhido uma imagem para esta prosa, não consegui, todas tinham pessoas.

As imagens são, de facto, poderosas. Tocam-nos pela conquista de Iwo Jima ou da Lua, pela certeza de uma morte no Vietname, pela violência de uma onda gigante, por um salto de uma torre, pela visão de um mar castanho onde devia haver terra firme. Transportam-nos. E nesse momento em que chegamos lá, ficamos próximos, queremos ajudar, queremos estender a mão.

Mas aparece sempre alguém que nos diz (é tão barato hoje dizer qualquer coisa nas redes sociais...) que não, que eles afinal não precisam ou que vamos ser enganados e alguém vai desviar a ajuda. Claro que é possível que aquele mendigo que pede uma moeda, afinal, tenha um Porsche na garagem. Claro que é possível que a moeda lhe alimente um vício que eu reprove. Claro que é possível que, à chegada da ajuda, um político corrupto se aproprie dela. E claro que quem sabe estas coisas sabe mesmo, daquele saber sabido que está documentado num post reencaminhado por alguém de confiança, em letra de forma.

Mas não será ainda mais possível que aquela mulher que levou os filhos para cima da árvore enquanto o mar lá em baixo subia ao mesmo ritmo da cobra precise de uma mão que a tire dali, e de um hospital que a trate, e de comida que a salve enquanto as águas não baixam, ela não enterra os mortos e não cultiva de novo?

Não será isso o mínimo que nos define como espécie, a capacidade de salvar um semelhante, mesmo correndo o enorme risco de sermos enganados?

Estamos a ficar velhos e muito céticos, lá na Europa ou na América. Doamos mas queremos auditoria. Ouvimos falar da auditoria e suspeitamos. Suspeitamos e gritamos ao mundo a nossa suspeita. Vem uma notícia de mau uso, real ou fake, e espalhamos. Garantimos que um dia, quando chegar a nossa vez, o ceticismo e a suspeita estarão de tal forma espalhados, que nada de ajuda vai vir para nós. Com uma aritmética destas, não será melhor correr o supremo risco de às vezes ser enganado, e mesmo assim ajudar?

Aquilo de que, se calhar, não precisamos é de, logo à partida, com auditoria e tudo, desperdiçar.

Não precisamos de enviar garrafões de água ou sabonetes a 8 000 quilómetros de distância, gastando uma fortuna em transportes. Não precisamos de enviar roupa sem saber se irá de avião e chegará cara, ou se vai de barco e chegará daí a uns meses para alimentar o mercado informal.

Podemos (devemos, digo eu...) escolher uma instituição credível que esteja lá perto da desgraça, enviar dinheiro, e confiar que localmente ela comprará os bens que forem mais prioritários, e conseguirá uma forma mais eficaz de os fazer chegar onde eles são necessários.

Podemos confiar que o nosso Governo e as nossas melhores instituições façam canalizar o dinheiro para a embaixada, ou o consulado, e que localmente, apoiando também essa economia, os bens sejam aí adquiridos.

Podemos pedir ao Governo e às nossas instituições que tenham um bom sistema de prevenção para ajudar quem precisa, naquilo que seguramente quando houver uma catástrofe vai falhar: médicos, fuzileiros, equipamentos, medicamentos, geradores (no Hospital da Beira, por exemplo, ficaram inutilizadas todas as incubadoras)... E que quando a catástrofe se declarar, haja uma boa coordenação com os meios locais, e se consiga fazer chegar esta ajuda o mais depressa possível. Vai ser caro mas vai ser útil.

Aplaudo o envio sem medida de hospitais de campanha, médicos, vacinas, antidiarreicos e antimaláricos, de produtos e sistemas de purificação de água, de equipas de busca e salvamento...

Todos ficámos emocionados ao ver o trabalho incansável da sociedade civil e das empresas em Maputo, durante mais de uma semana, a juntar água, comida, roupa, que produziram mais de duas mil toneladas a enviar para a Beira. Estamos perto, faz sentido, sai barato, permite mandar mais. E tudo registado, documentado, auditado.

Reconheço que é muito importante aquele momento em que pedimos aos filhos para juntar roupa para aqueles meninos lá longe que perderam tudo. É impagável aquele momento de solidariedade em que a filhota traz o seu peluche de estimação para oferecer. Ficamos com o coração cheio e amamos mais os nossos próximos, a desgraça longínqua também estreita abraços íntimos.

Mas porquê desperdiçar esse momento? Por que não fazer de cada calamidade uma oportunidade dobrada? Por que não pegar de imediato no NIB, mandar o apoio que se puder dar em dinheiro, e mesmo assim juntar a família, lembrar que fazemos parte de uma coisa maior que na nossa língua se chama Natureza ou Humanidade, e que podemos aproveitar para encontrar perto de nós um menino que precise de ter um peluche e que goste de saber o nome e a história dele, e conhecer melhor aqueles voluntários que na nossa comunidade vão prevenindo ciclones?