Panela AID

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maio
28
Conhecer os convidados

Por Fernando Oliveira

Esta história vai ser boa de contar... espero que saia bem... vai como sair. Quando se faz o melhor que se pode, dorme-se tranquilo.

Foi assim o Panela AID. O melhor que uns amigos conseguiram fazer por outros amigos, que não sabiam que tinham mas que precisavam de uma mão.

E, sobretudo, precisavam de panelas.

E no fim dormimos tranquilos, depois do último kit entregue na Missão do Dombe.

No princípio, eram as panelas para o Sr. Mateus.

Deu-se a circunstância de ir ao Chimoio um mês após o tal ciclone, que era o primeiro da série “mudanças climáticas severas”. Lá na província de Manica não se sabia muito disso, nem me parece que tivessem grandes culpas no cartório, dado que em muitas das populações nem luz há, como é que assim se consegue aquecer o Globo?

Bom, mas lá por Matarara — fica a uns 200 quilómetros a sul do Chimoio — a noite foi madrasta, o rio tornou-se mar, muitos perderam muito, alguns perderam tudo.

O Sr. Mateus era o líder comunitário, que sobreviveu. Ele sim, a sua mãe não, nem as cabras nem as galinhas nem o telemóvel. E perdeu 18 dos membros da sua comunidade. Isto, descobriu-o ao fim de três dias em cima de uma árvore, de onde saiu salvo por uns “brancos”. Acho que não se lembra de qual a nacionalidade, deve ter sido um dos que foram resgatados por uns quantos bravos sul-africanos incansáveis que andaram de rio em rio a salvar gente.

E enquanto falávamos destas coisas, perguntei o que mais lhe fazia falta. Imaginei que lhe sairiam medicamentos, ou roupa, ou se calhar o telemóvel. Eram panelas. Porque quando se sai de uma árvore para uma escola ou igreja e estão lá outras centenas de encharcados, há de haver panelas gigantes, mas quando se chega a uma tenda por família, nota-se que não há como preparar a comida, mesmo depois de chegar um donativo. Líder, dizem, é aquele que sabe como andar atrás dos outros. Terá andado, terá ouvido, e a prioridade são então as panelas, problema comunitário.

Levo na memória também o casal de perus que lá está à sombra da árvore em perueira improvisada. Será que vão durar?

E então ficou assim, havia que arranjar panelas. Quantas? Eram 339 famílias...

Regresso a Chimoio, encontro com a Dra. Lurdes, diretora provincial da Ação Social. Então, minha nova amiga, de que é que as populações precisam? “Panelas!” Na altura pareceu-me inovador, isto de encontrar um alto funcionário de um Governo que, logo assim às primeiras, coincide com aquilo que a população diz.

Então, pronto, está definido. Serão panelas. E quantas? Entre as povoações prioritárias, umas 600, incluindo as 300 e tal de Matarara. OK...

Logo a seguir, a confirmação. Telefonema para casa, a pedir autorização para irmos para a aventura. Claro, vamos a isso! Alguma vez poderia ser não?

E, então, o que é isto de comprar panelas? Vamos ao supermercado daquele chinês tão simpático, tão quase-português, o Sr. Fu. Ele e a esposa andam por Moçambique há alguns anos, em várias cidades e sempre contentes, tudo sempre “não tem problema”. É sobretudo a Nádia que tem olho para as melhores peças. Vai ser uma panela grande de 36 cm por 850 meticais, outra de 28 por 550. Vamos em 1400, OK, isto vai mesmo acabar em 2000. Precisamos de seis pratos, seis copos, seis colheres, os pratos são baratos mas fracos, complementa-se com umas tigelas melhorzinhas. E ainda dá para uma bela faca de corte, há de dar jeito, falta um bocadinho para os 2000, a Nádia traz uma caixa tipo “tupperware”, sim, sim, há de dar jeito. 2000 meticais, fechado.

Ó Sr. Fu, então, e se comprarmos grandes volumes disto quanto nos faz? “Quantos?” “Aí uns... 50”, digo, fazendo mentalmente as contas, pensando no que podíamos fazer se mais ninguém alinhasse no disparate das panelas...

Então fica assim, depois dirá dos descontos.

Isto parecia fazer sentido, porque afinal havia um grupo de amigos que se reúne às quartas-feiras para jantar, tudo gente de boas comidas e melhores amizades. Haviam de ser sensíveis a isto de dar panelas para o ciclone.

Então, na quinta-feira, que até era o dia da Última Ceia da Páscoa de 2019, lança-se um grupo no Whattsapp. No início, uns 20 amigos, a quem se conta a história do Sr. Mateus, e pedem-se companheiros para arranjar nada menos do que 600 kits. Nessa altura, decide-se que todos os membros do grupo serão administradores, assim podem trazer quem entenderem.

Aquilo do Whattsapp é prático mas tem alguns contras, como seja o de que quando alguém entra no grupo não tem acesso às conversas anteriores. Tem de se repetir a introdução uma e outra vez. Mas quem já lá está tem de gramar com as repetições. Ainda bem que, a tempo, a Ana se lembrou de fazer um descritivo completo no grupo.

Vamos aumentando a confiança, lá chegaremos! O Sr. Fu é informado de que chegaremos aos 600 kits, e promete desconto de 100 meticais em cada. Dá para quê? 2 kg de sal!! Então, quem é que se lembra de dar sacos de arroz e de feijão e cinco litros de óleo e não se lembra de qualquer coisa para dar sabor? O nosso grupo é de gente que gosta de comer, tem de ser o primeiro a oferecer sal!

E durante o fim de semana de Páscoa, começam a entrar mais e mais e mais amigos. Vamos recolhendo promessas de kits. Segunda-feira começa já com 140 pessoas no grupo, de quatro continentes. Temos muitos portugueses, alguns a viver em Moçambique, muitos em Portugal, e outros em sítios tão exóticos como Macau, Suíça, França, Brasil, Espanha, Bahrein... E moçambicanos, muitos. Muitos não conheço já, são amigos de amigos de amigos... Isto é uma corrente de confiança, todos vão tendo palavras simpáticas, vários voluntários vão explicando e trazendo outros... Entretanto, vamos ver se é possível abrir uma conta bancária. Gestor comercial já temos, é o Simão, incansável a mandar reportes sobre quem prometeu dar o quê. Cria-se o comité financeiro, fica a Fernanda, a São e a Cristina. Em Portugal ficam o Paulo e o Daniel. Não se conheciam, passaram a ter trabalho juntos. Há de demorar um pouco a abrir a conta lá, mas vai ajudar às transferências. Destas contas poderemos mostrar tudo, os extratos todos. Foram criadas só para isto, é para que não pudesse haver qualquer dúvida.

Vão entrando mais amigos, e mais... À noite, chegámos aos 209 amigos, e começa um tiquetaque incrível, em que chegam mais e mais kits... E, de repente, a uns minutos da meia-noite de segunda-feira, atingimos os 600 kits! Aquela segunda-feira ficará para a história como algo único: a maré de solidariedade e confiança que correu naquela verdadeira, legítima, rede social esteve à altura do maldito ciclone!

A seguir, é preciso marcar um calendário de entrega. Na semana seguinte há um feriado, é o 1° de Maio, há que contar com isso.

Então, Sr. Fu, e as panelas? Bom, a verdade é que não tem assim o stock todo lá à mão, vão ter de vir de Maputo e chegam segunda-feira... De Maputo...? Em Maputo estamos nós, se calhar a gente consegue encontrar a fábrica e entregar mais cedo... ou... baixar o preço para meter mais uns kits...

De facto, assim foi. Encontrada uma obscura e enorme fábrica de outro chinês, o Sr. Chen, descobre-se um stock gigantesco, e preços muito em conta. A poupança é relevante, para panelas equivalentes, poupamos uns 400 meticais, e com estas quantidades eles até entregam! Bom, mas ali há umas chaleiras muito interessantes... OK, então ficamos com as chaleiras, e passamos de 600 kits para 700! A bem dizer, àquela hora não havia cobertura para tudo isto, ainda não havia promessas de dinheiro suficiente, mas com o ritmo em que estávamos, havíamos de conseguir...! Ali à frente do Sr. Chen ficou então selado o acordo, seriam 700 kits e ele entregava no Chimoio. Transporte que a preço de custo nos valeu uns 80 kits!

O Sr. Fu ficou triste, afinal ia perder a maior parte do negócio do ano... Mas compreendeu, assumiu a entrega do resto dos utensílios do kit, e “não há probrema“. Bom amigo, boa gente, este.

E depois percebemos que havia alguns problemas de tradução com o sotaque moçambicano do mandarim do Sr. Chen, e afinal ele não mandava o camião antes de pagarmos tudo. Mas nós ainda não podemos movimentar as contas, na segunda-feira sim! “Paga tudo, panela sai.” Parecia simples.

No sábado, tudo preparado para conseguirmos, no banco cumpre-se o famoso provérbio moçambicano: “Não há sistema”...

Bom, mas na segunda-feira tenho de ir para o Chimoio, o nosso comité financeiro há de solucionar tudo, e lá no terreno há assuntos vários para resolver. Vou com a Lucrécia, ainda não há luz verde para o camião das panelas.

Chegámos ao Chimoio, vamos procurar a Dra. Lurdes para ver como organizar isto e obter apoio e segurança. Vários amigos têm voo apontado para quinta-feira, se as paneras chegarem. Virá a Mafalda e a amiga Vittoria, que investem dois dias de aulas em nome de aprendizagem para a vida, a Fernanda, as duas Anas e o Rui e o Paulo. Mais a Lurdes e a Lucrécia e a Nádia, seremos 11 lá no terreno quando tudo afinal correr bem.

Na segunda-feira encontramos o Sr. Fu, ainda não tem tudo. Ou, como diz outro provérbio famoso, “tem mas não há”... Faltam as tigelas, vêm a caminho. Do resto, não tem problema, quando for preciso, a sua parte dos kits estará devidamente ensacada.

E agora surge uma ideia... Se calhar, arranjávamos uns coletes para ficarmos bem nas fotos... Avança a Cristina, a equipa de distribuição há de trazer os coletes devidamente identificados. Panela AID devidamente equipada será outra coisa!

Reuniões com os técnicos da Direção Provincial. Definem-se as povoações prioritárias. Será Matarara (porque era um compromisso pessoal, e porque era prioritária também para o Governo), Magueba e Zibuia. É escusado procurar no Google Maps, não estão lá. O Google apanha coisas com alcatrão e luz e água, se calhar um dia apanha estas também, há objetivos de desenvolvimento lá na ONU que um dia as incluirão, mas há que esperar, para já são só panelas. Podemos até chamar-lhes o Objetivo das Panelas do Milénio.

Um ligeiro calafrio. Matarara eu conheço, sei que se chega bem, apesar de ser a mais longínqua, a uns 200 km do Chimoio, uns 40 km de terra batida. Mas Magueba e Zibuia ficam na outra margem de rios. Já por lá vi canoas de casca de árvore, barcos a sério não, e mesmo os muito-à-frente do World Food Program só lá chegaram com viaturas anfíbias tipo “Star Wars”... Bom, se é preciso, assim será! Terei feito bem? Não deveria dizer que não somos profissionais, e portanto é melhor ficarmos em terra firme? Naaaaah, isto ainda nem começou, não vamos já dar parte de fracos!

Terça-feira vamos afinando calendários, o camião das panelas já saiu de Maputo, há de chegar eventualmente, damos ordem de arranque a tudo o que faltava. Voos, quartos... No meio, temos o 1º de Maio, pode ser que o camião não pare para ver os desfiles!

E na terça-feira o senhor governador de Manica recebe os representantes do famoso grupo Panela AID! À entrada, uma limitação: não podem entrar telefones nem computadores. Como? Não pode ser, então como mostramos as panelas? Exceção excecionalmente concedida, entro eu e a Lucrécia para explicar o que é isto das panelas.

Correu muito bem a reunião, incluindo a mostra das fotos das panelas. À dúvida sobre se íamos entregar uma chaleira elétrica, brande-se a foto: sim, é uma chaleira de alumínio para fogo de lenha ou de carvão, que é o que há lá para as margens do Lucite e do Mussapa. Não nos apanham a distribuir eletrodomésticos em zonas inundadas.

O senhor governador promete toda a ajuda da sua equipa, nomeia a Luísa do INGC para o apoio diário, mais os dois técnicos que vão ao terreno, a Olga e o Eugénio. Seremos 14, portanto. Está quase, já só faltam as panelas.

Quinta-feira, 2 de maio, começa o descarrego do camião das panelas, confirma-se com o Sr. Fu que sim, que é para encher sacos. E vamos buscar os nossos amigos ao aeroporto.

Vai ser um dia de protocolos e de muito trabalhinho. Equipado a rigor, com coletes que na etiqueta original eram todos XXL, versão bosquímanos do Kalahari. Percebe-se a confusão lá na fábrica de coletes chinesa. Em África será tudo grande, não é preciso que os coletes também sejam.

Reuniões no Governo Provincial a definir horários e métodos. Saímos às 05h, está fechado. E protocolo de entrega formal de um kit, e entrevista para a TVM. A pergunta (era só uma, percebe-se que para puxar pela criatividade do entrevistado) é brilhante: “Os senhores vêm entregar um kit de cozinha, é só isto ou vêm entregar mais coisas?” Tentativa de explicar que havia mais 699 kits, quem era o grupo, porquê, etc., deve ter parecido penoso na TV, mas uma pergunta daquelas merecia discurso estruturado.

O grupo Panela AID está no terreno, e naquela sala de operações do ciclone, cheia de mapas e listas, a única atividade relevante é a nossa!

Vamos para o armazém, já lá há várias ajudas da Portucel, e estes novos oito voluntários hão de ser determinantes.

Com o que é que se parecem 700 kits de panelas e pratos e copos e chaleiras? Com um mar revolto, enorme. Um camião? Hahaha! Não chega, claro! Hão de vir mais dois. A caravana terá três camiões e três viaturas de apoio. Assim a olho, umas cinco toneladas de panelame que já passou por várias mãos e ainda nem começámos a distribuir.

É noite cerrada, o carro da Nádia não pega... Tem de ter solução, porque foi ela que ficou de arranjar as sandes...

Às 05h no Chimoio em maio é de noite... Encontro na bomba de gasolina, de onde temos também de levar o combustível e o óleo de mistura para o prometido barco. Sabe muito bem o Ricoffee batido que a Nádia fez, além das dúzias de sandes e pregos. Estamos 14, vamos lá então, rumo a Matarara!

A estrada é linda, com montanhas esculpidas para nosso deleite, tranquila, sinuosa mas segura. Passamos pela “ponte construída por Deus”, uma estranha formação em que de um lado e doutro da estrada há enormes ravinas, e no meio um encontro entre duas montanhas, apenas o suficiente para uma estrada...

Passamos pela Reserva Nacional de Chimanimani, avisos de elefante, até ao último dia havemos de os procurar, nada...

Ao fim de umas três paragens técnicas, chegámos ao posto administrativo do Dombe, ligeiro protocolo, estamos devidamente autorizados a avançar para a terra batida, rumo a Matarara!

O estradão é bom, não compromete o desempenho, mas obriga a distância face ao camião da frente, por causa da poeira.

A meio caminho, avistamos um saco com um kit. Tinha caído do camião. Do outro lado da estrada, duas senhoras. É impossível não terem visto aquele saco grande, mas nem se aproximaram. Aproximámo-nos nós delas. Uma mais normal, a outra fez impressão. Parecia uma velha, com uma mama flácida a tentar amamentar uma criança débil. Humildes, claro, como todas as outras. Mas ainda penso naquela dupla, a velha e o bebé, não fiquei com a impressão de alguma vez voltar a vê-los, não me pareceu que tivessem muitas hipóteses de ter mais Páscoas. Beberam uns sumitos, levaram o kit. 1 kit entregue, já só faltam 699!

Seguimos para Matarara. Terra conhecida, lá estão os refugiados agora campistas ocasionais, e o casal de perus. Gostei de os ver, dá uma sensação de futuro, de prudência...

Lá estava o Sr. Mateus, está na mesma. Lembrava-se da nossa conversa, lembrava-se de baixo de que árvore a tivemos. Achava que tinha sido há um mês. Não, amigo, foi há duas semanas.

Lá estão as senhoras todas à espera, sentadas no chão, mais os homens à parte, miúdos vários.

Oferta protocolar do primeiro kit à família do Sr. Mateus, com demonstração pública de todos os componentes. Notam-se sorrisos, alguma ansiedade, será que chega para todos?

E a lista? Corretíssima, são 335. Começamos a chamada, um a um. Tudo ordeiro, calmo, muito eficiente.

Impecável. Motivador. Somos capazes!

E é tão giro ver aqueles coletes amarelos, tão profissionais! Roam-se de inveja, UNICEF, WFP, etc.! Podem tentar fazer parecido, melhor não conseguem!

Matarara foi um exemplo de eficiência. Contando com o kit que foi apanhado na estrada, distribuímos 327. Tudo calmo, cada um, sobretudo cada uma, se levantava à chamada. A equipa dos coletes amarelos ia-se revezando na entrega. Calham-me algumas senhoras, uma sobretudo.

Era muito velhinha, muito pequenina. Não era de ser curvada, estava mesmo a minguar. E tinha um dente, bem no meio, em cima. Para que é que alguém quer um dente, um único? Não dará muito mais trabalho do que proveito? Mas assim, com um dente, se calhar já se pode chamar sorriso. Deu um sorriso quando recebeu o kit, mas como é que alguém assim carrega um peso daqueles? Ajudo-a um bocado, levo o kit, parece que de início tem receio de que não lho devolva... Dou-lhe a mão, fica mais confiante, lá ao fundo está o resto da família ou dos amigos, diz qualquer coisa noutra língua, deixo-lhe o kit, vamos para outra.

Daí a um bocado, tudo acaba em Matarara, arrumamos a caravana, seguimos para Magueba.

No caminho, paramos a ver uma escola. Tudo a denuncia como escola: os meninos, as carteiras, os quadros... Só faltavam as paredes, eram uns pilares de tronco, as janelas eram amplas, eram tudo. Em cima, uns plásticos azuis como telhado. Ao lado, uma tenda branca pequena, era a sala dos professores... A escola era lá antes, perto do rio, agora era aquilo. Mas muito digna, muito arrumada, com os alunos a acenarem à distância, pareciam bem-educados.

Vamos então para Magueba.

Saímos da estrada, por um caminho curto. Estacionamos. Lá em baixo, imagem de filme. Do lado de cá, uma árvore derrubada para fazer cenário, ao fundo o rio, e a margem do outro lado. Castanho tudo, tudo.

No rio, uns três ou quatro barcos artesanais, feitos de casca de árvore. Como é que isto vai ser? Chega o nosso barco, parece de alumínio. Tem uns quatro banquinhos, um motor pequenino, é carregado até à margem.

Se levarmos os kits para a outra margem, vai ser mais rápido, se ficarmos do lado de cá, terão de vir as pessoas no barco.

A decisão é prudente: virão as pessoas, assim controlamos mais. Do lado de lá, chamam-se as pessoas que virão no barco até este lado.

Confusão com as listas. Os 75 originais passaram a 113, afinal são 255 na lista da professora que conhece a população. Alguma tensão no ar, será que o posto administrativo se enganou ou será que estamos a ser enganados? Ao que parece, há várias realidades, motivadas pela necessidade ocidental de contar e registar. Parece que se registaram os “resgatados”, gente encontrada em árvores ou telhados, e também os “afetados”, gente que perdeu casas e machambas, mas não foi resgatado. E os outros, o resto das povoações, não registados por alguma razão, ou por alguma confusão.

Então vamos, são 255, entregamos os que pudermos. Pudemos 170, depois era noite e seria um perigo continuar. Foram as fotos mais bonitas, das pessoas em fila controlada, a chegar, a carregar, a voltar para o rio. Foi muito boa a decisão de fazer isto do lado de cá. Corajosa foi a Lurdes, que estava do lado de lá a chamar nomes e a controlar quem viria no barco.

Por hoje é tudo, voltamos para Chimoio.

Sentimo-nos bem, cansados mas sentimos que fizemos o possível. Amanhã será um novo dia, arrancamos de noite outra vez, às 05h é uma boa hora. Parece que vai ser mais fácil, são menos famílias.

Mas depois há avião para Maputo, temos de nos apressar.

Chegámos a Mwawa, base da operação de acesso a Zibuia. Aguardamos para perceber onde, pomo-nos a jogar à bola com os miúdos, têm uma bola feita de sacos de plástico e cordel à volta. Sólida, redonda, os miúdos são bons a fazer bolas.

Começa a avançar a manhã, lá encontramos o ponto de entrega. É entrar pelo capim adentro, parece que nada passa por ali há anos, não é estrada para carros, menos ainda para camião.

Ao fundo, uma pequena clareira, com vistas bonitas daquelas por onde não parece ter passado ciclone algum.

Lá mais atrás está o rio, baixinho aqui, nalguns sítios pelo joelho noutros pela cintura, lá se passa, também depende da altura de cada um e do peso que levar.

Aqui, se tudo correr bem, vão levar peso.

Aqui a lista é só uma, parece não haver dúvidas. Agora somos profissionais, temos um avião para apanhar daqui a bocado, vamos lá ao trabalho. Está pouca gente, a lista é mais comprida do que as pessoas que lá estão. Corre-se a lista toda, sobram muitos nomes, e sobram várias mulheres que continuam a aguardar um nome que não vai aparecer.

De vez em quando, aparecem duas ou três pessoas, a povoação do outro lado deve ser longe, deve ter faltado aviso atempado. Corremos três ou quatro vezes a lista, continuam a faltar nomes e a sobrar pessoas. Um líder local tentou sugerir a uma pessoa que o seu nome afinal seria um daqueles que estavam a ser chamados. Não transigimos. O senhor líder fica ao nosso lado, a assistir às respostas, não a sugeri-las. E kits, no fim sobram kits. Deixamos um para o líder comunitário entregar ali, a quem for mais prioritário. O resto levamos.

Uma consulta rápida ao relógio esclarece que já só vai dar para voltar para Chimoio, para apanhar o avião. Sobram kits, têm de ter um destino. Rapidamente decidimos quem vai e quem fica. Ficar implica mais uma noite no Hotel Castelo Branco, e arranjar voo de regresso no domingo. Não há lugares no voo de domingo, teremos de ir pela Beira, voo à noite. Um dia inteiro para fazer o trajeto Chimoio-Beira. Parece adequado, ficamos a perceber a rota do ciclone.

Fico eu e a Fernanda, a Ana e o Paulo. Não se espera muito trabalho de distribuição, vai ser deixar só nas missões, do Dombe e de Mossurize.

Mossurize não, descobrimos depressa. O motorista aponta a chegada lá bem para a noite. É melhor não, deixaremos tudo no Dombe, com instruções para que metade seja entregue a Mossurize.

E lá vai o camião e nós, caravana reduzida a um terço, na estrada que bem conhecemos, déjá vu repetido no dia, o terceiro em dois. Será o último, se tudo correr bem.

Pelo meio, telefonemas para uma irmã cujo contacto temos. Não está, quando chegarmos talvez esteja.

Chegámos à Missão, começa o lusco-fusco. Parece tudo muito arranjadinho, sem lixos, edifícios bem conservados. À frente, a Ana procura alguém. A mim, alguém encontra. São cinco meninas, muito educadas, mantêm a distância e o interesse, perguntam quem somos, quem serão estes que chegam à hora da missa, com camião e coletes amarelos. Explicamos tudo às cinco, uma delas é a Alegria. Rapariga bonita, nome bonito, mas a virtude parece ser outra, comum a todas. Diria tranquilidade, é o que transmitem. Chegam também o professor Passo, diretor da escola das raparigas — há outra ao lado para rapazes, cerca de 100 — e a irmã Miriam. Julgava pelos coletes que éramos uma “Ong”, dito assim, como “Õg”, há algumas que passam por ali a deixar coisas.

Nós não, não deixamos, missionamos. Deixamos na Missão uma outra missão, a de repartir os kits com a outra de Mossurize, e a de encontrar bom destino, próximo e urgente, para aqueles kits tão importantes, que vieram de Maputo, da Beira, de Portugal, da Suíça, de Macau... ficam impressionadas com esta “õg” tão profissional, tão generosa. E prometem ser fiéis à obra feita. As meninas ganham de prémio capulanas, daquelas que fazem furor em Moçambique por via da melhor campanha de sumos que por aqui alguma vez foi feita. Cai a noite, e as meninas cantam para nós, daquelas canções de agradecimento que se ouvem na igreja quando os anjos nos visitam.

Acho que demos as mãos e não dissemos muito, estava tudo dito.