Os jornalistas não têm SENTIMENTOS?

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novembro
28
Histórias sobre mim

Por Cristina Amaro

Escrevi este texto ontem à noite. Horas antes das notícias que traziam a público as palavras do nosso Presidente da República sobre a crise que se vive nos media. É longa, muito longa a discussão. E não é a que trago para este espaço, agora. Há dias dizia isso numa reunião na CCPJ. Está em causa a liberdade e a democracia do nosso país. É hora de parar para pensar. Para debater. Para ouvir os que são donos de órgãos de comunicação social e os que os gerem. De nos olharmos olhos nos olhos. Este texto, que ontem me saiu das entranhas como uma espécie de grito de alerta, talvez fosse uma premunição para o que hoje se traz para abertura dos jornais. Queiramos todos, os que defendem a liberdade, que o tema seja discutido como deve ser. Como todos merecemos que seja. E que amanhã os nossos dias sejam mais confiantes...

Partilho os meus sentimentos de ontem. Que hoje se mantêm. E que muitas vezes vêm acima por saber que, em Portugal, só quem fecha o sorriso e critica é que é levado a sério. Não sou, orgulhosamente, isso. E acho que qualquer país precisa do jornalismo factual e do inspirador. Eu escolhi esse.O inspirador. O positivo.


Sou jornalista. Detentora do título 3579 desde 1998, poucos meses depois de ter entrado na Revista EXAME. A revista que mudou a minha vida... a revista que permitiu encontrar-me como pessoa e como profissional. O título que me permitia conciliar o melhor de dois mundos: conhecer pessoas e histórias interessantes e partilhá-las com tempo para as interpretar e escrever.

Sou adepta do slow journalism. Como sou adepta de tudo o que se faz com tempo. Na verdade sou adepta da slow life. Mas acima de tudo sou adepta do sentir. E isso nasce connosco. É nosso. Está dentro do que temos de mais profundo na nossa essência. Independentemente da profissão.

Sentir é talvez o melhor sentimento da vida. É o que nos faz estar vivos! E é aqui que choco com a minha profissão de jornalista. Os jornalistas não podem ter sentimentos. Nada, para mim, mais errado. Os jornalistas são e têm de ser pessoas. Têm é de ser pessoas bem formadas. Têm é de ser pessoas íntegras. E isso nada tem que ver com sentimentos. Tem, sim, que ver com a forma como se está na vida...

O jornalista é, para mim e acima de tudo, um curioso. E eu sou e serei sempre uma curiosa, esteja a fazer o que estiver. Tenha a idade que tiver. E tenha os sentimentos que tiver.

Recordo-me que quando entrei na EXAME, um dos colegas deu-me uma folha A4 que dizia: “Os jornalistas não podem ser amigos da fonte”. Nunca concordei. Nunca deixei de ser quem sou e de ter relações de amizade com quem gosto pela profissão que escolhi.

Não estou disponível para deixar de ser quem sou para ter um título de jornalista. Sou uma profissional da comunicação, acima de tudo. Ao longo de mais de 20 anos nesta área, já vivi muitas experiências. Reportagem para TV, para revista, para jornal. Condução de programas, em especial o Imagens de Marca que conduzo há quase 15 anos... bastidores de televisão, de rádio, de imprensa e de digital com funções de direção editorial e de Publisher.

Os cursos de jornalismo que frequentei no Cenjor (jornalismo televisivo e radiofónico) e na Abril Brasil (jornalismo para revistas) foram importantíssimos para melhorar skills e para saber responder a todos os desafios. Os anos de experiência no jornalismo de imprensa (com a EXAME, Semanário Económico, Euronotícias, revista ganhar.net com mais uns tantos títulos com quem colaborei como freelance) e no jornalismo televisivo, com o Imagens de Marca, o Portugal Marca e O Nosso Médico, para a SIC Notícias deram-me uma experiência de que me orgulho muito.

Para mim os jornalistas podem e devem ter sentimentos. Têm, acima de tudo, de saber separar o que é pessoal do que é profissional. O que é verdade do que é manipulado. O que é informativo do que é promocional. Mais ainda quando a linha é ténue como acontece no caso do programa que conduzo e do qual sou autora e diretora editorial. E nós sabemos bem separar o que é (apenas) importante para a estratégia de comunicação de uma marca do que é importante para a audiência dos nossos canais.

O Imagens de Marca é um órgão de comunicação social especializado de que muito me orgulho. É um título com publicação semanal na televisão e diária no digital. É um chamado OCS especializado em branding (que envolve todas as áreas da comunicação de uma marca, seja ela uma pessoa, uma empresa ou um produto ou serviço), que fala de temas que o mercado gosta de ouvir falar, de forma natural e atual. Não será à toa que recebe centenas de propostas para reportagem, que recebe tantos elogios à forma positiva e inspiradora como olha para cada história que traz a público. Não será à toa que tanta gente lá quer estar...

Não somos “cinzentos”. Não o queremos ser. Acreditamos que a positividade e a inspiração fazem falta ao nosso país, às empresas enquanto motor da economia, às pessoas enquanto responsáveis por fazerem as empresas e as marcas serem o que são e contribuírem como contribuem para a evolução de cada país.

Os jornalistas não podem ter sentimentos? Os jornalistas não podem ser positivos? Os jornalistas não podem dar notícias boas, inspiradoras? Para mim podem. Para mim devem. Não é por mostrarem esses sentimentos e falarem de “coisas” positivas e construtivas que deixam de ser credíveis. Quantas vezes os grandes nomes da CNN se emocionam em direto... se interrogam, se indignam...

O mundo mudou. Tudo hoje é diferente e quem não se souber atualizar é porque não sabe acompanhar a mudança.

É imperativa uma reflexão sobre o jornalismo. É vital se renovar e se adaptar ao nossos dias e aos nossos desafios. É obrigatório termos, todos os profissionais do sector, uma noção clara da realidade. Do mundo que nos envolve e do mundo das redações.

É muito importante se reverem os títulos dos jornalistas. Se diferenciar o tom da comunicação da informação que as pessoas querem receber. Se adaptar aos meios que hoje estão ao serviço da nossa profissão e ao alcance da nossa audiência.

Não fará sentido olhar-se de outra forma para o jornalista especializado? Não terá um jornalista que fala de tecnologia ou de automóveis, ou de marcas, de ter um comportamento diferente de quem fala de política ou de sociedade? Porque será que na Califórnia há cursos de jornalismo especializado? Não fará sentido esse caminho?

Talvez falte isso a Portugal para que as pessoas que vestem os fatos de jornalistas possam ser mais “elas próprias” e tudo aconteça de forma mais natural. Mais transparente. É isso que faz falta ao jornalismo. Transparência. Mais do que se julgarem os sentimentos, julgue-se a verdade das redações.

Pensemos todos nós nisso. É necessário promover um debate sobre a verdade do jornalismo e sobre a verdade dos jornalistas. As redações precisam disso e a audiência também.

Eu sou jornalista. Especializada em branding. E sou uma pessoa. Uma pessoa de emoções. Será que não posso fazer jornalismo com emoção? Sim. Posso. E devo. E em momento algum me sinto menos jornalista por isso. Sou positiva. Construtiva e inspiradora e vos garanto que é por isso que o Imagens de Marca está prestes a completar 15 anos de antena e a reforçar a liderança dos magazines de maior longevidade na televisão portuguesa. Com muito orgulho.

Sentir a vida