O dia em que o meu MUNDO tremeu

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dezembro
05
Livros a não perder

Por César Ferreira

Olá, hoje quero contar-lhe um pouco sobre a minha história. Um episódio que marcou a minha vida para sempre. Todos nós temos momentos de excecional viragem. Situações em que somos levados ao limite mas em que tudo se encaixa, mais cedo ou mais tarde, como por magia. Há finais felizes mesmo quando temos tudo para dar errado. E foi a partir desse dia, desse fatídico dia, que a minha vida mudou drasticamente.

Quando tinha 2 anos de idade, foi-me diagnosticada a doença de Perthes bilateral. Como se isso não bastasse, o meu presente de aniversário dos 3 anos foi o internamento de longa duração no hospital. Enquanto, certamente, pensava receber um carro ou um boneco para brincar, tive uma viagem de carro, no Opel Ascona verde metalizado dos meus pais, até ao hospital. Nunca me tinha lembrado desse dia até há pouco tempo. Esta é uma das qualidades do nosso cérebro. Ele protege-nos da dor contínua, camuflando imagens que nos marcaram.

Para uma criança de 3 anos, este tipo de situações é devastador. Mas estávamos em 1979. Não havia ainda muita preocupação com o estado emocional dos pacientes que sofriam de doenças do corpo físico, como a minha. O que interessava era a cura a todo o custo, mesmo que isso implicasse “deixar” uma criança de 3 anos lidar sozinha com os fantasmas e os medos que a assombravam. Muitos dos meus fantasmas foram criados e alimentados nesse ano. Mais tarde, descobri que esses fantasmas eram, afinal, anjos…

Ainda não me lembro de muita coisa, nem sei se é assim tão importante recordar-me de pormenores. Sinto que a informação que tenho de momento me é suficiente para retirar aquilo de que preciso.

Passados nove meses de internamento, e após os meus pais e os médicos repararem que algo em mim não estava bem, pois não conseguia falar normalmente, fui enviado para casa para continuar o tratamento, que consistia em ficar deitado numa cama com sacos de areia presos aos tornozelos.

Com o passar do tempo, chegou-se à conclusão de que tinha vivido uma situação de trauma no hospital. O resultado foi uma gaguez crónica. Uma gaguez que me acompanhou até aos 27 anos de idade.


Quando somos gagos, tudo em nós gagueja. Os nossos pensamentos, as nossas emoções, as nossas escolhas. Toda a nossa vida se baseia no princípio da hesitação. O mais difícil para mim não era gaguejar a falar, mas o que sentia quando sabia que tinha de falar. Houve momentos em que a minha autoestima estava abaixo de zero. Numa zona tão fria, em que me sentia congelado. Hoje percebo que esta paralisia era a minha forma de encarar o medo. Há quem fuja, eu paralisava.

Como brinde de uma gaguez que teimava em não me largar, a vida colocou-me muitas vezes em situações emocionais e mentalmente pesadas. Bullying, dificuldades de aprendizagem, sentimento de inferioridade e falta de merecimento foram apenas algumas das batalhas que tive de travar.


Foram muitos os médicos que os meus pais e eu consultámos. Psicólogos, terapeutas da fala, psiquiatras, neurologistas. Todos com um objetivo bem forte. Ajudar o César a superar as suas dificuldades.

Embora todos eles tivessem dado o seu melhor, a verdade é que nada mudou. Houve até quem me dissesse, olhos nos olhos, que teria de aprender a viver com a minha diferença, pois era algo que me acompanharia toda a vida.

Durante algum tempo, acreditei mesmo nesse diagnóstico. Vendo bem, até tinha uma desculpa que estava cientificamente provada. Só tinha de me esconder nisso e tudo correria bem. Tinha uma justificação eterna para a minha falta de coragem e de bravura.


Certo dia, tudo mudou. Estava no início da minha especialização em Ciências da Informação e descobri que para cada cadeira tinha de apresentar oralmente um trabalho. Até esse dia, tudo tinha corrido bem. Através da minha criatividade, lá conseguia fugir a todas as apresentações de trabalhos, o que me permitiu, mesmo assim, concluir a minha licenciatura.

Mas desta vez estava a ter dificuldades em agir da mesma forma. Estava exausto de máscaras e de ser quem não era. A minha vida dependia dessa especialização. O meu primeiro filho tinha acabado de nascer e estava perante uma possível entrada para o quadro de pessoal da organização onde trabalhava.

Lembro-me de, após saber que tinha mesmo de apresentar oralmente os trabalhos, pensar em desistir. Desistir mais uma vez de algo que era importante para mim. Deixar cair um sonho. Apagar da memória mais uma imagem que até poderia ser bonita.

Desistir pode, para alguns, ser um ato de coragem quando estamos perante o medo. Eu sentia isso mesmo. Que estava perante o maior medo de todos: aquele que me impedia de ser eu próprio. Com as minhas falhas, mas também com as minhas virtudes.

Após o fim da primeira semana de aulas da especialização e ainda com o “vou desistir” na mente, voltei para casa. Sentia-me um exímio derrotado. Lembro-me de vir a chorar compulsivamente no comboio. Recordo-me de me insultar de tudo. De atirar à cara de mim mesmo toda a cobardia e toda a revolta por, mais uma vez, tudo ser tão difícil para mim. Sentia-me uma vítima.

Assim que cheguei a casa, fui, como de costume, ao quarto onde estava a minha companheira e o nosso bebé recém-nascido. Já era tarde. As aulas acabavam às 23h30, o que, com o tempo de transporte, só me permitia chegar a casa uma hora e meia depois. Ao entrar no quanto, vi que a minha companheira amamentava o nosso filho. Como se a vida me tivesse dado uma enorme “chapada” na cara, fiquei parado a observá-los. Como poderia permitir-me não fazer tudo o que estava ao meu alcance para os amar? Como poderia deixar que os meus fantasmas influenciassem incessantemente a minha vida? Que espécie de pai seria eu? Como poderia defender o meu filho se nem falar conseguia? O que estava disposto a fazer por eles? O que estava disposto a fazer por mim?

Dirigi-me para a sala e sentei-me no sofá aos murros nas almofadas. Mais uma vez, as lágrimas caíram sem pedir que tal acontecesse. Sentia-me entre a vida e a morte. Entre tudo o que poderia fazer-me viver verdadeiramente e tudo o que me aniquilava lentamente. Lembro-me de ouvir um grito interno. Um pedido de ação urgente. Uma espécie de força interior que me ultrapassou por alguns minutos antes de tomar uma das decisões mais importantes da minha vida: ia deixar de gaguejar!

Curiosamente, e nos dias a seguir a essa decisão, já falava mais fluentemente. É incrível o que acontece dentro de nós quando tomamos uma decisão. Mas o meu objetivo era mesmo dominar o medo de falar por completo. Conseguir colocar a minha voz no mundo.

Procurei na leitura a motivação, a força, as ferramentas que me permitiram superar esta situação de uma vez por todas. Li para me autoconhecer, para ganhar coragem, para desenvolver a minha capacidade de aprendizagem, para aperfeiçoar a minha comunicação, para despertar os recursos que estavam adormecidos dentro de mim. Estava a viver literalmente a minha verdade.

Muito mudou desde essa decisão. Agora sei que o passado foi o meu maior mestre. O dia em que o meu mundo tremeu foi o dia em que nasci de novo.

“Tudo tem em si beleza, mas nem todos podem vê-la” (Confúcio)

Permiti que a beleza interna fosse ocultada durante demasiado tempo. Agora era tempo de assumir a minha responsabilidade e de me comprometer por completo com o meu sucesso. E quando aceitei a minha beleza interna, esta começou a ser visível por fora.

Atualmente, o que mais amo fazer é falar em público. Sempre que estou em palco, sinto que estou no sítio certo. É uma sensação tão boa, que quando falo em público sinto que o mundo para. Para para me escutar. Para ouvir a minha mensagem.

Um dos livros que me ajudaram a encontrar a motivação e a força interior para superar a gaguez foi “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Lembro-me de que foi uma das leituras que me facilitaram ir mais além, independentemente das circunstâncias.

Revi-me muito no papel do pescador Santiago. Para mim, um exemplo de quem transforma impossibilidades em vitórias.

Todos nós, nalguma etapa das nossas vidas, temos episódios de gaguez. Fases em que hesitamos e estamos inseguros. Momentos em que nos falta a confiança e nos sentimos vítimas de uma situação. Pela minha experiência, tudo o que nos amordaça pode também libertar-nos. Dá-nos acesso ao lado B da dor. O lado onde se encontra a mais necessária das nossas conquistas.

Desejo-lhe momentos inspiradores.

Boas leituras.

Sentir a vida