Karl e o legado da LIBERDADE criativa

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março
25
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Por Mónica Seabra-Mendes

Karl Lagerfeld foi o génio de criação de moda e de luxo mais prolífico, que mais tempo se manteve à frente da mesma marca e mais livre do século XXI. E foi justamente essa liberdade que lhe permitiu reinventar-se constantemente e perpetuar o seu talento e a sua obra.

Apesar do peso da responsabilidade de ser o diretor criativo de uma das mais icónicas marcas de luxo do mundo, com décadas de existência e com uma exigência constante de atualização, Karl conquistou, por mérito próprio, a confiança da Chanel para poder criar livremente. Criar sem contingências de tempo, de dinheiro e sem os imperativos de “bom e mau gosto”. Nem todos os criadores têm esta sorte. Nem todas as marcas têm esta visão.

Contrariamente a Karl, os criadores sentem hoje uma enorme pressão. Se uma coleção não tem sucesso, raramente lhes é dada uma segunda oportunidade. À medida que os negócios do luxo assumem uma expressão planetária, a lógica dos lucros e da rentabilidade a curto prazo prevalece. O luxo aproxima-se de uma gestão mais própria dos negócios de moda, caracterizada por uma oferta descartável, baseada em ciclos curtos de criação e produção, e apertadas contingências de custos, em detrimento de uma estética inovadora e intemporal, de uma visão a longo prazo e, consequentemente, de um modelo de negócio mais sustentável.

O luxo passou de um discurso unilateral com o seu cliente, em que se assumia como o detentor do “bom gosto” e do estilo, para um diálogo em que, muitas vezes, mais do que influenciar é influenciado. Faz-me recordar Henry Ford, o homem que revolucionou a indústria automóvel, quando afirmou que se perguntasse aos seus clientes o que eles queriam, eles teriam dito um cavalo mais rápido...

De cada vez que o luxo se demite do seu papel de criar e de surpreender e deixa de exercer uma reflexão cultural mais profunda, não é só o luxo que empobrece, é também a sociedade.