Aos SUPERVIVENTES do cancro

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fevereiro
08
Livros a não perder

Por César Ferreira

Eram cerca das 10h30 da manhã quando consegui falar com o meu pai, que estava internado no hospital em fase terminal devido a um cancro de pulmão. A sua voz apressada só teve tempo de soletrar o meu nome antes de a chamada cair. Mal sabia eu que, apenas passados dez minutos, o telefone tocaria com a notícia de que tinha falecido.

Sempre fui habituado a viver com o machado do cancro sobre a minha família. Se houvesse um jackpot para este tipo de maleita, certamente éramos os vencedores.

Esta semana comemora-se o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro (4 de fevereiro). Um mal que afeta milhares de pessoas anualmente. Os números são obscuramente incríveis, basta referir que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, “um quarto da população em Portugal está em risco de desenvolver cancro até aos 75 anos e 10% corre risco de morrer de doença oncológica” (dados de 2018).

São muitos os heróis e as heroínas que enfrentam diariamente as dores, os tratamentos, a degradação do corpo e da mente devido ao cancro. São pessoas como você e eu, mas numa condição em que o fim da linha paira sobre as suas cabeças.

Admiro, honro e venero a sua dedicação à cura. À vida. Aos momentos bons que ainda acontecem e que funcionam como um bálsamo para a dor. À sua vontade de ainda querer sorrir e ver os outros bem.

Tanto o meu pai como a minha mãe morreram em consequência do cancro. Tanto um como o outro lutaram e continuaram a abraçar os seus filhos com tal força, como se nada estivesse a acontecer. Tinham a capacidade de estar presentes quando tudo tinham para estar longe, fechados sobre si mesmos. Optaram por acariciar a vida enquanto a morte lhes piscava o olho.

São muitas as imagens que guardo dos seus últimos momentos. Imagens que pararam no tempo e que tive dificuldade em digerir. Por vezes, perguntava-me aonde iam buscar recursos para suportar tanta dor e as agulhas que entravam e saíam do seu corpo já sem incomodar. Por vezes, olhava nos seus olhos e via o medo da morte, mas também um amor irrefutável que teimava em permanecer. Um amor pela vida que tem a habilidade de ir além do compreensível.

Nunca estaremos preparados para uma situação destas. Não há nada que nos faça aceitar de ânimo leve um caso desta natureza. Contudo, há histórias de superação, de cura, de esperança, de poder humano. Há algo em cada um de nós que tem a força de querer permanecer por cá quando a morte está a um suspiro de distância.

Não sei se é amor, uma questão de sobrevivência ou mesmo uma qualidade do ser humano. Mas sei que há portas que só se abrem quando temos a chave certa. Há uma humanidade que só é revelada quando o fim está próximo. Lidar com isto talvez seja tão intenso como lidar com a doença.

Que este dia que se dedica à Luta Contra o Cancro seja um marco de todo o trabalho árduo, investimento e esperança que tanto representam este combate. Aos portadores dessa doença, aos profissionais de saúde, às famílias, aos voluntários, às organizações, a todos os que investem o seu tempo, o seu conhecimento e o seu amor nesta luta que parece não ter fim, a minha profunda gratidão.

Todos os dias morrem pessoas vítimas de cancro. Todos os dias cometemos e provocamos erros nos nossos hábitos de vida. Todos os dias há uma família que se despede de um ente querido. Todos os dias há crianças que se transformam em estrelas cintilantes no céu. Todos os dias há lágrimas que caem de dor, desespero e frustração. Todos os dias uma vida se despista na estrada da vida.

Mas todos os dias há quem nos mostre que o jogo só acaba quando todas as hipóteses forem exploradas e que, mesmo que o cancro leve a melhor, a missão de vida é cumprida. E há quem leve esta luta muito a sério, mantendo, independentemente das circunstâncias, um sorriso nos lábios. Estes são os Superviventes.

A todos os que passam direta ou indiretamente pelo cancro, a minha sentida e humilde homenagem. Para mim, são Superviventes. Vidas que cumprem o melhor de si, mesmo nos contextos mais desafiantes.

Sugiro a leitura de dois livros que são uma inspiração a este nível. Embora nem todos os finais sejam felizes, ficam sempre os exemplos de força, esperança e amor, que são eternos.

“Nonô, A Princesa Côderosa”, de Jorge Coutinho, e “Dar Luta ao Cancro”, de Carla Jesus.

No livro de Jorge Coutinho, conhecemos Leonor. Uma menina muito especial que deixou a sua marca no mundo através da sua coragem e da sua determinação. Uma verdadeira guerreira que muito nos ensinou sobre a vida e a alegria.

Em “Dar Luta ao Cancro” conhecemos 20 histórias de portugueses que lutaram contra o cancro. Audazes exemplos que devem ser divulgados o máximo possível.

Sinto saudades dos meus pais. Do colo, dos conselhos, do toque do telefone quando me ligavam. Mas há algo que ficou e que me faz suportar tudo isso todos os dias: a forma corajosa como viveram cada segundo no tempo que tiveram.

Desejo-lhe momentos inspiradores.

Boas leituras,

César Ferreira
Biblioterapeuta e reading coach

Sentir a vida